#4 Abençoados ecrãs

Ana,

Já não posso com as queixas contra os “ecrãs”. Sejam psis encartados ou meros aprendizes de feiticeiros, não se calam com a profecia de que os telemóveis estão a transformar os miúdos em monstros.

Depois de uns dias com netos divertidos e bem-dispostos, rápidos nas respostas e cheios de sentido de humor, pergunto-me se não andam todos a colocar o foco somente nas coisas negativas. As crianças e os adolescentes têm problemas? Simples que sim. Não temos todos? Mas reduzi-los aos problemas é que é um disparate.

Eu cá fiquei muito grata aos ecrãs

Viram filmes, fizeram TikToks mega criativos, consultaram receitas para fazer bolos deliciosos e aprenderam a pintar melhor com aguarelas, graças a uns filmezinhos quaisquer do YouTube. E, evidentemente, também jogaram jogos para descontrair a cabeça e editaram fotografias para ficarem mais bonitos nas redes sociais, mas de caminho “profissionalizaram” as minhas e aquilo exige arte e originalidade que lhes vai servir para tudo na vida.


Querida Mãe,

Ámen! Eu que o diga: só estou cá a responder à sua birra porque eles estão a ver um filme na sala. Estou segura de que há mesmo um problema de excesso de ecrãs, mas sinceramente parece-me que é tudo menos uma questão infanto-juvenil. Estamos todos hiperviciados no telefone. Sou a única que, à noite, e apesar de enxurrada de sono, continua a ver coisas inúteis, com dificuldade em largar o telefone? E que, quando finalmente o faz, no momento em que pousa a cabeça na almofada, pensa “Que ESTÚPIDA, porque é que não fiz isto mais cedo?”. A única que mal chega a uma fileira, no supermercado ou na secretaria de finanças, começa imediatamente à procura do telemóvel porque não consegue tolerar cinco minutos de agastamento?

Mãe, sejamos honestos e tentemos aprender a gerir isto em nós próprios, primeiro, porque nos fará muito e, segundo, porque um sermão não-hipócrita é capaz de ser mais eficiente!


O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita irmandade que — ocasionalmente! — as invade. E, pretérito o confinamento, perceberam que não queriam perder nascente meio de notícia, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Agora, ao longo do Verão, deixam curtos avisos que não são de desprezar. Facebook e Instagram.


Manancial: https://www.publico.pt/2022/07/14/impar/cronica/4-abencoados-ecras-2013582