A luta que pariu Manuel Pizarro

Marta Temido deixou de ocupar o função de Ministra da Saúde sendo substituída pelo também profissional de saúde Manuel Pizarro, uma vez incapaz de definir com exatidão de que lado estava: do das mulheres vítimas de perpetuada violência obstétrica ou do Estado Patriarcal.

Manuel Pizarro, semanas depois de tomar posse, criou a Percentagem de Séquito da Resposta em Urgência de Ginecologia/ Obstetrícia e Conjunto de Partos para provar em que frente se posiciona: a do Estado Patriarcal, falocêntrico, violador, belicista e abusador da quesito das mulheres. Com isto, ficámos todas a saber a rosto do atacante e ainda muito porque a luta que o pariu conhece agora o rosto que veio para perpetuar a violação dos nossos corpos: é varão, branco, de média idade e representa a ordem de luvas e roupão branca.

É preciso declarar frontalmente, e se necessário gritar, que a proposta da Percentagem mais não é do que uma ação de bullying perpetuado sobre as mulheres, estejam ou não em período de maternidade, que tem porquê objetivo sitiar as mulheres à sua quesito de vacas profanas enquanto teima transmutar o epicentro do Sistema Vernáculo de Saúde da trato para o curador, do utente para o magistério. A proposta da recém-criada Percentagem vem na perenidade de uma política de saúde estrategicamente pensada para tirar as especialidades de ginecologia e obstetrícia do Serviço Vernáculo de Saúde e entregá-las a operadores de saúde privados. Só assim se entende a proposta de fechamento de urgências obstétricas de setentrião a sul do país.

Com centros de saúde sem médicos de família e com filas a formarem-se de madrugada, com partos a serem feitos em ambulâncias, quando não em frente a guichês de informações por bombeiros, que epílogo tão difícil é esta a de se chegar que é violência obstétrica, hospitalar e bullying psicológico o legar para o projecto do transacção o parir das vacas profanas.

A saúde da mulher deve ser entendida nos seus diversos momentos, iniciando-se com o protecção das jovens mulheres para a primeira consulta de ginecologia em espaços fêmea, de protecção e empatia social, onde não se pratiquem atos médicos, mas ao invés, cuidados médicos que passam pela: avaliação pré-concecional, examinação e diagnóstico; avaliação de fatores de risco; comitiva durante os momentos de reflexão, opção e decisão da mulher em abraçar um novo projeto de vida que inaugura o período pré-natal.

São, por isso, vários os momentos em que se exige um comitiva ao nível dos cuidados médicos e de saúde da mulher. Mas é a partir do período pré-natal que as obrigações do Estado aumentam. Nascente deve comprometer as especialidades médicas ao reverência, que não têm, pelos elementares Direitos Humanos e, consequentemente, prometer às mulheres o recta universal e gratuito de aproximação a cuidados médicos partilhados por equipas de saúde materna multidisciplinares que vigiem o estado físico e emocional da mulher durante o ciclo gravídico-puerperal, parto, pós-parto e neonatal, sempre com o compromisso de promover a saúde da mulher, o aproximação subitâneo a exames e tratamentos, à emergência médica e pontualidade dos cuidados médicos, e, finalmente, diligenciar o comitiva da relação da mulher com o neonato durante os primeiros meses de vida.

Na personagem de mulher arremessada para o lugar da desumanização o tema de Gal Costa continua mais do que atual: “Dona das divinas tetas/ Derrama o leite bom na minha rosto/ E o leite mau na rosto dos caretas”, ou porquê a Percentagem do Dr. Manuel Pizarro pretende, que o leite bom cubra a rosto das clínicas privadas e o mau, o das vacas leiteiras tal qual direcção é parir no estábulo, seja espalhado no falido SNS. Engendrado num clima em que parir não é percecionado porquê um ato de garantia da perenidade da espécie humana, mas antes um ato de humilhação e temor certificado na secretaria do Ministro da Saúde, os cuidados de vigilância da gravidez são material legislada pelo Parlamento Europeu, mas tratada pela atual legislatura porquê um privilégio. Enquanto privilégio, determinar por ter um rebento não é um simples ato de paixão, ao invés um ato de matemática, de tarar os prós e os contras, de perceber se estão reunidas as condições de passar por todo um período de maternidade sem perturbações que não transforme o parir numa luta a que as mulheres se veem obrigadas.

A luta que pariu Pizarro é a luta das mulheres entregues a um trajeto pessoal solitário – de confronto, consumição, temor e pânico – para o qual o ministro empossado abriu incêndio, atingindo os géneros, etnias, classes e origens territoriais mais fragilizados: as mulheres, as mulheres melanodérmicas, as mulheres migrantes, as mulheres vítimas de violência doméstica, as mulheres que vivem em condições sociais desfavorecidas. Tudo em nome das clínicas tal qual funcionamento o ministro tão muito conhece, até porque delas retira capital.

A objetificação da mulher não cedeu ao sistema de quotas nem à legislação inclusiva e por cada passo em frente ergue-se um tropeço que impõe às vacas profanas que baixem os cornos perante o patriarcado falocêntrico, cego por manter compatíveis incompatibilidades.

A violência obstétrica também é isto, a normalização do “nascido sem dor, criado sem paixão”, a elevação da instituição ao beneficiário. Irá um dia ser o Estado capaz de fazer contas às vidas que perde e às que não ganha e perceber que ao regularizar a violência obstétrica numa das suas muitas faces está a apressar o despovoamento do planeta Terreno, a peitar a geografia humana, a produzir um mercado de barrigas de arrendamento equiparando estas mães temporárias a novas profissionais desqualificadas, legitimando por mais séculos o corpo da mulher porquê um corpo de permissões, sitiado, ocupado e laboratorial?


Manadeira: https://www.publico.pt/2022/11/24/opiniao/opiniao/luta-pariu-manuel-pizarro-2028940