A relação quase perfeita entre Jerónimo e Costa que acabou no amplexo de urso

Leste domingo, António Costa fez a sua homenagem a Jerónimo de Sousa, repetindo o mito que também o secretário-geral do PCP já várias vezes enunciou: foi Jerónimo, na noite das eleições de Outubro de 2015, o grande responsável pela formação da “geringonça”.

Escreveu Costa: “Antes da dimensão política evoco a sua cordialidade e empatia e a profunda estima que me liga a Jerónimo de Sousa. Saúdo o militante e dirigente do PCP. E recordo que foi ele que deu o primeiro corajoso e decisivo passo que, em Novembro de 2015, abriu as portas a uma novidade relação na esquerda portuguesa”.

Acontece que ao manifestar “o PS só não é governo se não quiser”, quatro dias depois das eleições legislativas de 2015, Jerónimo não estava a dar o tal “decisivo” passo. Na veras, a geringonça tinha sido concebida durante a campanha eleitoral quando António Costa percebeu que corria o risco de perder as eleições, mas haveria de conseguir tornar-se primeiro-ministro se fizesse um concórdia com o PCP e Conjunto de Esquerda. As conversações estavam bastante avançadas quando chega o dia das eleições.

Era um cenário tão inacreditável – um primeiro-ministro de um partido que ficou em segundo lugar nas eleições bravo pelo PCP e Conjunto de Esquerda – que pouca gente deu atenção à manchete do Expresso que, uma semana antes das eleições, dizia que Costa iria continuar para a “geringonça”.

Antes de Jerónimo, também no debate na campanha eleitoral que teve com António Costa, a líder bloquista Catarina Martins tinha colocada meia-dúzia de condições viáveis para admitir um Governo PS. Mas se a mito é mais interessante, publique-se a mito – uma vez que diz a personagem do famoso western “O Varão que Matou Liberty Valance”.

O que não é mito nenhuma é o facto das relações entre Jerónimo de Sousa e António Costa terem sido de longe mais próximas e colaborantes do que foram as relações entre o Governo PS e o Conjunto de Esquerda. Jerónimo era o líder do “parceiro fiável” da estranha coligação, aos olhos de Costa. O facto de executar justamente todos os compromissos que assinava com o Governo PS (ao contrário do que alegadamente fazia o Conjunto de Esquerda, segundo os socialistas) era um activo importante.

As relações pessoais de Costa e Jerónimo eram absolutamente perfeitas porque o secretário-geral do PCP tem uma capacidade rara para conseguir estabelecer relações pessoais únicas com quase toda a gente (“Um senhor”, chamou-lhe levante domingo Marques Mendes na SIC). É quase impossível não gostar de Jerónimo de Sousa e levante facto, coligado ao profundo reverência pelos compromissos da geringonça que o PCP foi revelando, transformou Jerónimo no parceiro predilecto. O facto do pai de António Costa, o plumitivo Orlando da Costa, ter sido sempre militante comunista foi sempre indicado uma vez que um factor que ajudava ao diálogo.

A relação com o Conjunto de Esquerda foi muito mais difícil. Os confrontos entre Catarina Martins e António Costa ficaram célebres pela falta de, digamos, “empatia”. A embirração de Costa com Catarina Martins era notória (já tinha sido assim com Assunção Cristas, quando a ex-deputada era líder do CDS, mostrando alguma tendência do primeiro-ministro a desgostar de debater com mulheres).

Mas há cá também um factor político: enquanto António Costa não via o PCP uma vez que uma prenúncio, não acreditando que fosse um partido para o qual o eleitorado do PS transferisse os votos, já com o Conjunto de Esquerda a situação era dissemelhante. E se Jerónimo de Sousa teve que enfrentar, dentro do partido, alguma objecção interna por ter aceitado a “geringonça”, tudo acabou mal, com a bancada parlamentar do PCP a encolher significativamente nas últimas eleições.

O “amplexo de urso” foi consumado – inverter esta situação é o objectivo do colectivo que a partir da próxima semana será liderado por Paulo Raimundo.

Manancial: https://www.publico.pt/2022/11/07/politica/noticia/relacao-quase-perfeita-jeronimo-costa-acabou-abraco-urso-2026708