Ao sexto dia, as chamas voltaram a espancar às portas de Pombal e Ansião

Esta quinta-feira ficou marcada por uma sucessão de fogos controlados e reacendimentos que não deram tréguas a (quase) nenhuma região. O susto voltou a espancar à porta dos moradores de Ansião, ganhou força em Oliveira de Azeméis e em Caranguejeira. O dia terminou, todavia, com um suspiro de consolação em alguns dos distritos mais afectados do país.

Os grandes incêndios que lavraram na última quarta-feira, em Ourém, Caminha, Leiria e Palmela, foram dominados, mas continuavam perto de milénio operacionais em “acções de estabilização e rescaldo”, para prevenir novos reacendimentos durante a madrugada.

Mais uma vez, a maioria das ignições deram-se nas horas de maior calor, entre as 12h e as 17h, mas o comandante vernáculo da Protecção Social, André Fernandes, alertou: durante a última semana foram habituais as ocorrências “em grande número” já de madrugada. Para os concelhos mais atingidos, as noites estão a tornar-se de insónia.

No totalidade, nesta quinta-feira contaram-se 165 incêndios, 23 dos quais continuavam activos às 19h30, envolvendo 2100 operacionais, 22 meios aéreos e 123 veículos de combate ao lume. Somadas todas as ocorrências desde dia 8 de Julho, Portugal está a um passo de registar 1000 novos fogos unicamente numa semana: são já 978, de congraçamento com a Protecção Social.

Pombal e Ansião: 580 hectares em cinzas

Pombal e Ansião foram os concelhos mais atingidos pelas chamas nesta quinta-feira. O incêndio que deflagrou na última sexta-feira em Vale de Pia, na freguesia de Abiul (Pombal), rapidamente chegou ao município vizinho de Ansião e, até agora, não deu folga à população nem aos bombeiros.

Às 21h30 continuavam no terreno 550 operacionais, apoiados por 145 veículos e uma avião. O lume que se estendeu de Pombal a Alvaiázere e Ansião, onde ameaçou as populações de Pia Furada e Lagoa Paragem, já queimou uma superfície florestal de pelo menos 580 hectares.

Em Alvaiázere, civis e operacionais estiveram lado a lado, mais uma vez, no esforço de combate às chamas. “Estamos a fazer o levantamento dos danos, além de controlar os reacendimentos”, adiantou o autarca de Alvaiázere, João Paulo Guerreiro. “Tivemos de retirar murado de 50 pessoas, que começam a revir às suas habitações à medida que há segurança.”

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Um sapador florestal combate as chamas junto à povoação de Rebolo, durante o incêndio que começou em Abiul, Pombal
PAULO NOVAIS/LUSA

João Paulo Guerreiro lamentou ainda que um dos bombeiros no terreno tenha ficado ferido. As labaredas que lavraram no município destruíram, pelo menos, três casas de primeira habitação.

Ainda em Leiria, o lume que começou em Caranguejeira queimou pelo menos 20 hectares na localidade de Crasto, onde chegou perto das habitações, obrigando à evacuação da povoação. Pelas 17h, o vereador com o pelouro da protecção social no município, Luís Lopes, garantiu à sucursal Lusa que o incêndio estava já submetido.

Baião e Amarante: lume avançou pela Serra do Marão

O incêndio que deflagrou na madrugada desta quinta-feira numa zona de mato em Baião chegou a Amarante (ambas no província do Porto), mas a mudança de direcção do vento terá ajudado o município vizinho e impedido que o lume se aproximasse de uma zona habitacional.

Às 21h, o incêndio considerado importante pela Protecção Social ainda avançava na Serra do Marão, obrigando à mobilização de 113 operacionais e 37 meios terrestres. As autoridades estimam que já tenham ardido 600 hectares na região.

O autarca de Baião, Paulo Pereira, ainda alertou para um segundo incêndio que começou durante a tarde mais a sul, em Sequeiros, Ancede, mas a situação terá sido controlada pelos bombeiros no sítio.

Oliveira de Azeméis: incêndio ganhou força durante a noite

Outro dos fogos que deixou várias cidades em sobressalto começou na quarta-feira, em Pinho da Bemposta (Oliveira de Azeméis), e, da noite para o dia, ganhou enormes proporções.

As várias reactivações de um incêndio nunca submetido na totalidade tornaram imprevisível o progressão das chamas e, em vários momentos, foi a população a controlá-las com todos os meios de que dispunha, enquanto esperava pela ajuda dos bombeiros.

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Rescaldo do incêndio em Palmela, que cercou a vila nesta quarta-feira
RUI MINDERICO/LUSA

O lume que ganhou força e violência ao longo do dia consumiu mais de 2500 hectares em unicamente sete horas, de congraçamento com a estimativa da Protecção Social.

De congraçamento com o Comando Distrital de Operações de Socorro de Aveiro (CDOS), o incêndio que se alastrou aos concelhos de Estarreja e Hospedagem-a-Velha estava submetido às 20h. “Neste momento, não há vento. Passou a segmento pior”, disse à Lusa o comandante do CDOS, José Carlos Pinto.

MAI pede “mais desvelo”

A situação de contingência em Portugal foi prolongada até às 23h59 de domingo, dia em que se reavaliará a transição para o estado de alerta. José Luís Carneiro, ministro da Gestão Interna, avançou a informação e elogiou a “grande eficiência” no combate aos incêndios. “A resposta cá não é mais meios, é mais desvelo. Se houver desvelo, não há incêndios”, considerou.

Do lado da Protecção Social, o comandante André Fernandes anunciou reforços no terreno, onde actuarão mais 1262 operacionais a combater os incêndios. Desde 7 de Julho, já foram assistidos 184 feridos, quatro deles graves. Foram também retiradas das suas casas 872 pessoas por prevenção.

Manadeira: https://www.publico.pt/2022/07/14/sociedade/noticia/sexto-dia-chamas-voltaram-bater-portas-pombal-ansiao-2013749