“Aquele idoso trémulo voltou a estar à minha frente pela última vez”: a tragédia e o colapso do regime nazi nas memórias de Albert Speer

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É um testemunho detalhado e pessoal sobre o funcionamento interno do regime nazi. A construção e a vitória do partido, a geração e a amplificação de uma guerra totalidade, a relação com o povo boche e as memórias de uma das mais destacadas figuras da Alemanha de Hitler. “Por Dentro do Terceiro Reich”, livro originalmente publicado em 1969, está nas livrarias numa novidade edição em português (com o timbre da Sátira), com prefácio de Rui Ramos.

Albert Speer, o responsável, ficou na história uma vez que “o arquiteto nazi”, o responsável dos projetos e das construções de maior impacto da Alemanha dos anos 30 e 40, o varão responsável pela reconstrução de Berlim. Foi também ministro do Armamento, mas foi, sobretudo, companheiro íntimo de Hitler, o mesmo que haveria de descrever uma vez que um “génio do mal”.

O Observador faz cá a publicação de um excerto de “Por Dentro do Terceiro Reich”. Revelamos o capítulo em que Albert Speer descreve os últimos dias do regime, o pânico no bunker da capital, a aproximação do tropa russo e a morte de Hitler. Speer haveria de ser sentenciado a 20 anos de prisão, no julgamento de Nuremberga. Morreu em Londres, em 1981. Tinha 76 anos

▲ A revestimento de “Por Dentro do Terceiro Reich”, de Albert Speer (Ed: Sátira)

A aniquilação

Pelo que me apercebi, durante as últimas semanas da sua vida, Hitler libertou-se da rigidez em que caíra nos anos anteriores. Voltava a mostrar -se atingível e, às vezes, até estava disposto a discutir as suas decisões. Mesmo no inverno de 1944, teria sido inconcebível que se dispusesse a falar comigo sobre as perspetivas da guerra. Logo, também a sua intransigência quanto à ordem de «terreno queimada» teria sido inimaginável, muito uma vez que a muda correção do meu exposição radiofónico. Voltava a estar sincero a uns argumentos que, há um ano, não teria estado disposto a ouvir. Porém, não se tratava de um relaxamento interno, mas dava a sensação de ser alguém cuja obra vital ficara destruída e que só se mantinha em movimento pela inércia dos anos anteriores, apesar de, na verdade, ter posposto tudo e se ter resignado.

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Quase parecia ser insignificante, embora, talvez, nisto sempre tenha sido o mesmo. Em retrospetiva, às vezes pergunto-me se aquela intangibilidade, aquela insignificância, não era uma particularidade que o acompanhou desde a sua juventude até à sua violenta morte. Desta forma, as atitudes encolerizadas podiam apoderar-se dele com grande veemência, já que não eram neutralizadas por nenhuma emoção humana. Ninguém podia aproximar-se do seu ser precisamente porque estava morto e vazio.

Agora, tratava-se da insignificância de um idoso. Os membros tremiam-lhe e andava encurvado, a impelir os pés; até a sua voz era insegura e perdera a sua antiga formalidade. O seu vigor dera lugar a uma forma de falar indeciso e monótona. Quando se alterava, o que acontecia com frequência, uma vez que costuma ser habitual com os idosos, quase tinha voz de falsete. Continuava a ter ataques de teimosia, mas já não me faziam lembrar as birras de uma gaiato, mas as de um velho. Tinha a tez descolorida e a rostro inchada; a sua farda, antes impecável, naqueles últimos dias da sua vida, costumava estar amarrotada e com nódoas da comida que ingerira com a mão a tremer.

Não há incerteza de que o seu estado comovia o círculo que o acompanhara nos momentos culminantes da sua vida. Eu também corria sempre o risco de sucumbir àquele contraste, que era comovente em múltiplos aspetos.

Talvez por isso toda a gente o ouvisse em silêncio quando, naquela situação, que durante muito tempo foi desesperante, continuava a transferir divisões inexistentes ou mandava efetuar transportes com uns aviões que não poderiam descolar por falta de combustível. Talvez por isso também se aceitasse que se evadisse cada vez com mais frequência da verdade e que se perdesse no seu mundo de fantasia e se pusesse a falar do grande conflito que não poderia deixar de subsistir entre Oriente e Oeste e que garantia ser inevitável. Embora o seu círculo devesse ter visto o quão quiméricas eram aquelas ideias, a sua contínua e sugestiva reiteração continuava a ter um efeito fascinante, uma vez que quando garantia que só ele, com a sua personalidade e a sua força e coligado com o Oeste, estava na disposição de esmigalhar o comunismo; soava plausível quando garantia que todos os seus esforços já não se encaminhavam para outro termo, embora para si próprio desejasse que chegasse depressa a sua última hora. Precisamente aquela integridade com que via aproximar-se o termo inspirava piedade e aumentava a veneração daqueles que o rodeavam.

Outrossim, voltava a mostrar-se harmonioso e simples. Em muitos aspetos, fazia-me lembrar o Hitler que conhecera há doze anos, quando comecei a trabalhar para ele, mas agora parecia mais sombrio. A sua obséquio limitava-se às poucas mulheres que, há anos, estavam com ele. Dedicava maior atenção à senhora Jung, a viúva do seu criado morto em combate, embora a sua cozinheira dietética vienense conquistasse a sua peculiar simpatia; as suas duas secretárias, a senhora Wolf e a senhora Christian, também faziam secção do círculo privado no qual Hitler passou as últimas semanas da sua vida. Há meses que, na prática, comia e tomava chá somente com elas; os homens já quase não tinham chegada à sua intimidade. Eu também não participava nas suas refeições há muito tempo. De resto, a chegada de Eva Braun introduziu algumas alterações na rotina diária, sem que, por isso, a relação que tinha com as outras mulheres do seu meio, provavelmente inócua, terminasse.

Natividade: https://observador.pt/especiais/aquele-idoso-tremulo-voltou-a-estar-a-minha-frente-pela-ultima-vez-a-tragedia-e-o-colapso-do-regime-nazi-nas-memorias-de-albert-speer/