Cancelamentos e violência

O termo cancel culture, cultura da anulação, foi criado há muro de quinze anos pelos sectores mais radicais da direita americana e rapidamente se tornou uma expressão-espantalho que é usada para nomear coisas muito díspares, incluindo a legítima liberdade de sentença e de opinião. Não são raras as vezes em que os denunciantes de “anulações” manifestam por fim o descarado libido de serem eles a “anularem”. E quase sempre há o esquecimento de uma verdade fundamental: quem tem o poder de anular são os poderes oficiais, é o Estado e as suas instituições que anulam ou censuram. Esquece-se muitas vezes que as manifestações públicas de cidadãos, fazendo uso da sátira, nos media, na rua, nas redes sociais, na esfera pública em universal, não é a mesma coisa que o Supremo Tribunal da Rússia anular uma associação que se labareda Memorial, constituída por historiadores para averiguar os crimes cometidos pelo poder político no tempo da União Soviética.

Manadeira: https://www.publico.pt/2022/07/15/culturaipsilon/cronica/cancelamentos-violencia-2013487