Entre a Ilhota de Moçambique e Lisboa: José Eduardo Agualusa conversa sobre coincidências, o desapego, a literatura e o mar

A conversa com o SAPO acontece em Lisboa, mas vai rumando muito ao Sul. As praias do Índico misturam-se com a literatura, as personagens de livros com os mercados editorais e a geração artística com banhos de mar. Premido com vários prémios literários, responsável de romances e livros infantis, de exposições de retrato e de trova, José Eduardo Agualusa cultiva o desapego numa ilhota a quem faz declarações de paixão e onde gostaria que chegassem mais turistas.

Nasceu em Angola, viveu no Brasil, em Portugal e na Alemanha. Neste momento, passa grande secção do ano na Ilhota de Moçambique, Património Histórico da Humanidade pela UNESCO desde 1991. O que o cativou e o levou a permanecer?

A Ilhota cativou-me muito antes de a saber. Eu conheci-a através da trova. Muitos poetas viveram e escreveram sobre ela, desde o Luís de Camões, que lá viveu dois anos – pensa-se que ali terá feito de grafar Os Lusíadas –, ou Bocage, e também Tomás António Gonzaga, que foi degradado na Ilhota e acabou por matrimoniar com a filha de um mercador de escravos muito rico e até hoje há descendentes dele.

A Ilhota tem levante lado inédito por ser uma das cidades mais antigas do sul de África. Quando os portugueses chegaram, aquela zona já era colonizada pelos árabes e suaílis. As construções são muito antigas e fascina-me a unidade arquitetónica. Há muitos lugares que têm património histórico idoso, uma vez que Olinda, onde vivi, e Ouro Preto [ambas no Brasil], mas estas cidades têm intromissões de arquitetura contemporânea e ali não.

Acho que durante muitos séculos o que a caracterizou foi mesmo essa capacidade de aspirar influências e presenças de vários locais. Lado a lado, vemos igrejas e mesquitas e também há um grande templo hindu. É um lugar que soube receber todos os povos que chegaram. Foi um importantíssimo porto, não só mercantil, mas também uma vez que uma relação entre África e o Oriente.

A Ilhota de Moçambique ao final do dia

A Ilhota de Moçambique ao final do dia

D.R.

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A Ilhota de Moçambique ao final do dia D.R.

Recentemente, saiu um item no jornal moçambicano O País em que falava da valor de restaurar o turismo na Ilhota de Moçambique e que a situação não estava boa, principalmente depois da passagem do furacão Gombe e da pandemia. Uma vez que está atualmente a situação?

Não foi só a pandemia e o furacão. Há também os ataques terroristas em Cabo Fino. Estas situações prejudicaram muito o turismo. A primeira vez que visitei a Ilhota, na viradela do século, a situação era muito má. A maior secção dos edifícios da Cidade de Pedra estavam em ruínas. Mas entretanto foi recuperando graças ao turismo e eu vi-a a estrear a desenvolver-se: apareceram os novos hotéis, bares, restaurantes e as ruínas foram recuperadas. Com a pandemia houve uma queda, mas os conflitos intensificaram-na e nestes dois últimos anos foi um sinistro.

Uma vez que há uma guerra no país, as pessoas não querem viajar para Moçambique. Depois ouve-se falar em extremismo islâmico e desistem de viajar. A Ilhota caiu muito, muito… Os restaurantes, as pequenas mercearias e os hotéis fecharam e os que estão abertos estão a permanecer com condições piores. Tudo gira à volta do turismo, e nota-se que mesmo as pessoas que levam os turistas a passear nos barcos estão a permanecer cada vez mais desesperadas.

Mas ao mesmo tempo é um sítio muito seguro para se visitar. Uma vez que é um espaço fechado, toda a gente se conhece. Não há turismo de massas e ao término de dois dias já tratam as pessoas pelo nome.

Nas primeiras linhas de Os Vivos e os Outros, escreve: “Depois de os conhecermos intimamente, os lugares passam a ser outros”. Uma vez que é para si a Ilhota agora e a relação quem tem com ela?

É simples que há uma relação muito pessoal porque conheço as pessoas. Mas passo a maior secção do tempo a grafar, portanto uma grande secção do dia é a trabalhar. Tenho uma filha pequena, agora com três anos, com quem também passo muito tempo.

“As praias são muito bonitas e é muito fácil encontrar praias e ilhas totalmente desertas”

O meu escritório é a três minutos do pontão onde costumo nadar. Quando não me apetece grafar, saio, mas não há muito para fazer. Às vezes, dá para trespassar e alugar os dhows, umas embarcações tradicionais centenárias que existem até hoje, e visitar as ilhas à volta, as praias são muito bonitas e é muito fácil encontrar praias e ilhas totalmente desertas.

Li que dizia que viver na ilhota é um manobra de desapego. Dedicou-lhe poemas e retrato [Gramática do Instante e do Infinito (2020) e O Mais belo Fim do Mundo (2021)]. Apesar do desapego, parece possuir uma forma de tentar materializar levante sentimento com a ilhota. É uma das muitas antíteses de que somos feitos ou levante desapego empurra-o para fabricar?

É verdade, porque há muito pouco. Por exemplo, quando fui ao hipermercado fazer compras quando cheguei a Lisboa, já me fez sensação o excesso de coisas e a dificuldade em escolher. Evidentemente, na Ilhota é exatamente o contrário. Há muito pouco. E é preciso reaprender a viver com o mínimo, unicamente com o absolutamente necessário.

O ter menos implica menos dissipação. Quanto menos bens materiais temos, menos preocupações temos também. Ter menos liberta-nos e talvez nos ajude a concentrar naquilo que é precípuo. Não só nas relações com as pessoas, mas também tenho mais disponibilidade para o meu trabalho.

Sinto falta de amigos, de pessoas com quem possa conversar e dos meus livros. Tenho a maior secção dos livros cá em Lisboa. Já tenho muitos lá, mas o furacão destruiu muitos deles, levou as janelas e as portas e a chuva entrou toda.

Uma vez que foram os seus hábitos de leitura durante o confinamento? Li que na impossibilidade de viajar, viajou nos livros. Que autores estiveram mais presentes nos tempos de confinamento?

Eu vivi esta pandemia de uma forma muito próprio. Mesmo no início, fui a um evento literário em Marrocos, depois vim para Lisboa com a intenção de permanecer uma semana ou duas e ia para Angola. A viagem foi cancelada e acabei por permanecer cá seis meses. O meu fruto que estava em Londres veio ter comigo e estivemos cá em morada. Portanto, mantive os mesmos hábitos de leitura.

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Eu estava a grafar e acho que, para nós escritores, não foi uma grande mudança. Primeiro, já não saímos muito quando estamos a grafar e costumamos trabalhar em morada. O que imagino que tenha sido para a maioria das pessoas uma grande mudança e uma grande modificação de hábitos, para nós, sinceramente, não foi.

“Não vivi a pandemia da mesma forma que a maioria das pessoas viveu”

Depois, fui para Moçambique e aluguei uma morada em Inhambane e passei mais seis meses na praia. Ali, em Moçambique e em Angola, quase não houve Covid-19, mas houve muitas regras, algumas em excesso até. Morreu muito mais gente de malária durante esse tempo.

Portanto, eu não vivi a pandemia da mesma forma que a maioria das pessoas viveu, os meses na praia foram meses de férias e Inhambane tem muita vida. O mar estava pleno de baleias e elas vinham até à praia, vimos baleias a seis ou sete metros. As memórias que guardo da pandemia até são boas memórias e os melhores momentos foram esses em Inhambane.

Esta idade coincidiu com o lançamento do livro Os Vivos e os Outros, em que ficcionalmente um grupo de descritores estava confinado na ilhota de Moçambique…

O livro deveria ter sido lançado em março mas saiu para as livrarias em junho sem lançamento. Foi o primeiro livro em toda a minha vida que não teve lançamento…

Ainda para mais com a coincidência do tema.

Até com o furacão.

Mesmo antes de se pensar em confinamentos, escrevia sobre isolamento. Primeiro, um isolamento ficcional na ilhota e logo a seguir outro real no mundo. Depois, essa libertação, as praias e as baleias em Moçambique. Uma vez que lidou com todas estas camadas de confinamento entre as várias realidades e a ficção?

Não sei, preciso de mais tempo para refletir, para assimilar estes anos. De qualquer maneira, não senti uma vez que a maioria, mas senti de outras formas. Precisamos de mais tempo para assimilar. Acho que todos nós precisamos.

Mas de facto o livro tem isso. Tem estas coincidências, o isolamento, e levante tempo que não passa, que nunca mais acaba, que talvez tenha sido o que nós todos tenhamos sentido: um tempo sem tempo, desligado da veras.

“O inferno e o paraíso estão dentro de nós”

O livro é muito isso: as pessoas estão ali numa espécie de purgatório, para algumas pessoas a ilhota é um paraíso e para outras um inferno. E pode ser mesmo assim. Num espaço só as pessoas ficam dentro de si próprias. Se vivem num inferno no seu interno, esse inferno vai ser exacerbado, embora tudo à volta seja muito lindo. O inferno e o paraíso estão dentro de nós, não estão fora.

O Mais Belo Termo do Mundo, lançado no final do ano pretérito, junta crónicas e textos de ficção sobre os tempos que vivemos entre 2018 e 2021. Diz numa entrevista que uma vez que angolano tem de ser otimista e que em Angola não há lugar para pessimistas. Olhando para a veras de hoje, e para a infeliz fundura que a Europa atravessa, ainda encontra otimismo?

Continuo otimista. É verdade que a veras tem sido particularmente cruel. Com todos nós. E quando saímos de um evento catastrófico surgiu logo outro. Mas penso que se o Trump não tivesse saído do poder que esta situação na Ucrânia poderia estar muito pior, ou que talvez já tivesse invadido o México. Felizmente, Trump já não está no poder e no Brasil tudo indica que Lula vá lucrar as eleições.

Mas há uma coisa terrível a sobrevir no Brasil e um dia vai contar-se essa história: é absolutamente catastrófico para o meio envolvente e para as populações indígenas o que está a sobrevir na Amazónia. Só teremos a dimensão totalidade daqui qualquer tempo, mas é um sinistro inteiro. Mesmo em relação à Ucrânia, tudo leva a crer que Putin não vai trespassar muito desta situação. Vamos ver.

Oriente espaço mediático sobrelotado nos últimos anos, primeiro com a pandemia e agora com a guerra, deixam África mais esquecida?

Talvez, mas isso não é necessariamente mau. Em relação à pandemia, África safou-se muito muito e notou-se que é um continente só e com poucas ligações. A pandemia atacou sobretudo os centros de poder e de grande movimentação. Dizia-se que ia ser uma tragédia absoluta e foi exatamente o contrário. Foi o continente que melhor resistiu.

Em agosto de 2021, em Milagrário Pessoal, escreve sobre a língua e sobre as palavras. Parece possuir alguma sátira aos neologismos e ao mesmo tempo uma procura por palavras novas. Uma vez que é que olha para estas metamorfoses da língua, sendo a Língua Portuguesa falada em espaços tão diferentes?

A língua portuguesa tem vindo a enriquecer-se nas últimas décadas nos países africanos porque não está sozinha, partilha o território com muitas outras línguas. Todos os dias há milhares de pessoas que chegam à língua portuguesa vindas de outros idiomas e transportam para a língua não só as palavras mas também as expressões que são características das línguas nacionais e das línguas africanas.

Também acho que os africanos têm uma relação com a língua portuguesa menos formal do que os portugueses. Mas isto está a mudar e aliás através dos africanos, porque os jovens portugueses nos últimos anos incorporaram muitas palavras angolanas por culpa do sucesso da música popular angolana em Portugal. Ou seja, a originalidade é muito maior em África e no Brasil.

Quando chegaram as telenovelas brasileiras a Portugal, havia muito o pânico que íamos passar a falar português do Brasil e o que aconteceu foi que entraram algumas expressões que não existiam e que talvez fossem importantes na língua.

As línguas incorporam palavras quando há urgência, quando não existem. Por outro lado, a importação de palavras, uma vez que acontece muito com o inglês, quando existem na língua portuguesa, irrita-me, não são necessárias e fazem-se construções horríveis.

Há palavras de que gosta principalmente?

Uma vez que repórter, paladar de todas as palavras. Mas todas as palavras que têm que ver com luz são palavras que eu paladar. Paladar também de me surpreender e de desvendar palavras.

A praia do Tofo, em Inhambane

A praia do Tofo, em Inhambane

créditos: Dominic Scaglioni| CC| Flickr

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A praia do Tofo, em Inhambane créditos: Dominic Scaglioni| CC| Flickr

Diz que escreve porque há inquietude e para saber o que vai sobrevir e que é a curiosidade que o move para continuar a história. Uma vez que é que há levante encontro entre repórter e a curiosidade de leitor? Deixa a escrita fluir ou há uma negociação entre ambos e muita reescrita?

As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Acho que há duas estratégias na escrita: os escritores que partem para a escrita depois de já terem uma estrutura pronta, criam uma arquitetura, sabem o que querem narrar e depois começam a grafar. Há outros escritores, uma vez que eu, que partem de uma teoria – e às vezes é uma teoria muito vaga –, ou eventualmente de uma personagem e deixam que sejam as personagens a irem construindo a história.

“O presente vai mudando o pretérito”

Isto implica um grande trabalho de reescrita, porque, à medida que vamos tendo conhecimento da história, temos de recuar e emendar o que está por trás e reescrever, porque vamos assumindo esse conhecimento e o presente vai mudando o pretérito. Exige uma escrita permanente.

Até que momento?

Na verdade, há um momento em que aquele livro se fecha e ganha um sentido. Existe um trabalho de edição e de oficina de escrita, mas não deixa de possuir surpresa. Continuo a grafar motivado pela surpresa e pela curiosidade.

A Ofélia, personagem do livro Os Vivos e os Outros, diz que vende mais camisetas com a frase “Eu sou é das palmeiras” [ripostando a um jornalista que lhe perguntava de onde era] do que com a trova. É uma sátira a levante lado mercantil do mercado editorial. Uma vez que olha para levante mercado tendo em conta que publica a um nível internacional em países muito heterogéneos?

Havia pessoas que chegavam ao mercado editorial com a crença de que um livro era igual a um resultado qualquer. Não é. Não é igual.

Também existem diferentes tipos de literatura. Há muitos romances de ficção que não são literatura. Aliás, nesta crise, quando houve uma queda no número de vendas, verificou-se que os escritores literários tinham perdido menos leitores do que os escritores comerciais. É muito fácil de perceber isso: quem consome literatura tem essa urgência. É uma urgência. Mesmo que tenham de fazer sacrifícios, vão continuar a comprar os livros. O mesmo não acontece aos leitores de livros comerciais.

Tem falado também sobre o preço dos livros, principalmente em Angola. O que acontece?

Os livros em Angola são muito caros, sobretudo as edições importadas. É sempre bom lembrar que no tempo do partido único [de 1975 a 1991], o livro era bravo pelo Estado e era muito barato. Um livro custava o preço de um cigarro e as pessoas compravam livros.

“As pessoas querem comprar livros e querem ler, mas não conseguem comprar”

A Conjura [1989], o meu primeiro romance, teve uma primeira edição e 15 milénio exemplares e esgotou ao término de dois ou três meses. O Pepetela chegou a ter edições de centena milénio exemplares e esgotavam. Ou seja, as pessoas querem comprar livros e querem ler, mas não conseguem comprar.

As edições portuguesas, que são vendidas em Angola, são vendidas a um preço absolutamente contra-senso. E não é compreensível. Acho que há uma tentativa de exploração porque as editoras têm esta teoria de que há muito moeda em Angola. No último lançamento que fiz em Luanda, com o Mia Couto, [do livro O Terrorista Elegante e Outras Histórias] tive jovens a vir ter comigo para autografar no mesmo livro para quatro pessoas porque se tinham juntado para conseguir comprar um réplica.

Ando a falar com a minha agente sobre isto porque – para já estou recluso contratualmente – gostava que os livros estivessem à venda a um preço conseguível. Não acho que isto seja correto.

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Numa fundura em que a literatura africana parece lucrar um novo fôlego a nível internacional, uma vez que se conjugam os interesses das grandes empresas editorais com o espaço para os novos autores africanos?

Acho que as grandes empresas editoriais perceberam que podem lucrar moeda com a literatura africana e também começaram à procura. O grande sucesso da Chimamanda Ngozi Adichie, que já tem uns dez anos, mudou as regras. As editoras começaram à procura de autores africanos. No Brasil, isto foi muito simples. Havia poucos autores negros publicados no Brasil e os editores diziam que não publicavam porque não vendiam. Com a Chimamanda e outros autores no Brasil, percebeu-se que havia leitores interessados. E isso mudou por completo.

E há mais espaço para autores emergentes?

Os editores têm sempre interesse em desvendar novos autores, que possam vender tanto quanto o Mia Couto, e vão à procura. Quando o Zeferino [Coelho] lança o João Melo também é nessa teoria. O Onjaki vende, o Agualusa vende, deixa lá ver. É sempre também à procura do lucro, não tenhamos ilusões

A literatura africana ainda é um estilo literário? Há certas expectativas para os autores africanos?

Havia mais imposições ou ideias feitas, mas estão a desvanecer à medida que os autores se afirmam e vão ganhando prémios. No ano pretérito, a maioria dos prémios literários foram ganhos por autores de origem africana e isso vai eliminando estereótipos preconceitos.

Entre Lisboa e a Ilhota de Moçambique, tem planos para os próximos tempos?

No porvir, gostaria de passar mais tempo em Angola, mas não sei. Eu também paladar de surpresas, que a vida me surpreenda.

Uma vez que nos livros?

Exatamente.

Nascente: https://www.sapo.pt/noticias/vida/artigos/entre-a-ilha-de-mocambique-e-lisboa-jose-eduardo-agualusa-conversa-sobre-as-coincidencias-entre-ficcao-e-realidade-o-desapego-a-literatura-e-o-mar