Eu sou jornalista!

  • Em directo. Siga os últimos desenvolvimentos sobre a guerra na Ucrânia
  • Guia visual: mapas, vídeos e imagens que explicam a guerra
  • Privativo: Guerra na Ucrânia

Ihor Hudenko, Yevhenii Sakun, Zoreslav Zamoysky, Roman Nezhyborets, Viktor Dedov, Oksana Haidar, Brent Renaud, Maks Levin, Oleksandra Kuvshynova, Pierre Zakrzewski, Oksana Baulina, Mantas Kvedaravičius, Yevhenii Bal, Vira Hyrych e Frédéric Leclerc‑Imhoff.

1716296?tp=UH&db=IMAGENS&type=JPG&w=320&act=resize

Foto

Jornalistas tentam abrigar-se durante bombardeio em Irpin
Carlos Barria/Reuters

Estes são, de consonância com os dados do Comité para Protecção de Jornalistas, os profissionais da informação social que desde o início da invasão russa da Ucrânia morreram no manobra da sua profissão. São 15 nomes e 15 histórias por manifesto diferentes, mas todos, independentemente do género, da idade, da nacionalidade, da organização ao serviço da qual se encontravam, têm um pouco em generalidade: eram jornalistas, fotojornalistas ou trabalhavam para os media.

Estes homens e mulheres merecem a nossa sentida homenagem e o nosso tributo colectivo, na medida em que pereceram para que nós – o mundo – pudéssemos testemunhar em tempo real e sem trespassar do sofá os acontecimentos que se desenrolavam na Ucrânia e que abalaram e continuarão a fugir o nosso modo de vida de formas que ainda nem sequer somos capazes de compreender.

Se estas mortes devem merecer lástima de todos, a verdade é que elas me tocam mais profundamente. A minha curso, apesar de ser hoje na advocacia, começou, enquanto jornalista, no extinto O Primeiro de Janeiro, quando tinha 18 anos. Tenho a firme fé de que um jornalista, tendo-o qualquer dia sido, nunca mais deixa realmente de o ser, razão pela qual interpreto e sinto a perda destes jornalistas porquê a morte e o sofrimento de colegas de profissão. Não fossem os sempre imprevistos caminhos a que a existência nos leva, poderia ser eu a estar na risco da frente e a suportar semelhante fado.

1716295?tp=UH&db=IMAGENS&type=PNG&w=320&act=resize

Foto

Ao mesmo tempo que lamento estes precoces fins, não posso deixar de sentir, hoje, um enorme orgulho no jornalismo. Porquê muitos já salientaram, esta é a primeira guerra transmitida em directo e ao minuto para todo o mundo, com centenas de repórteres no terreno, quer seja na risco da frente do conflito, quer seja na retaguarda. Praticamente todos os órgãos de informação social europeus (pelo menos os portugueses) deslocaram jornalistas para a Ucrânia que, arriscando mais ou menos, têm feito um trabalho maioritariamente sensacional, tendo em conta as condições existentes. Podendo legitimamente recusar ir aventurar a vida e a integridade física, os nossos jornalistas têm optado pelo caminho inverso, notando-se em todos uma abnegada vontade de ir para junto dos acontecimentos e noticiá-los.

A minha sincera esperança é que a cobertura jornalística que tem sido feita da guerra na Ucrânia faça com que o público renove a sua crédito na informação social e no jornalismo, em Portugal e na Europa.

Desde que deixei de praticar esta sublime profissão o jornalismo mudou muito e nem sempre mudou para melhor. Não se trata unicamente de uma questão de formação, de cultura, de moral ou de saber, trata-se sobretudo de uma profunda mudança na forma porquê se produzem, reproduzem e divulgam notícias. Os canais de informação 24/7, a Internet e mormente as plataformas digitais vieram colocar pressões e desafios gigantes à tradicional missão de mediação cometida à informação social. O imediatismo venceu a investigação séria e aturada, o maninho glosa da actualidade superou a reflexão aprofundada, a informação confunde-se com a opinião e os factos diluem‑se no penoso caminho da pós-verdade e da polémica do dia de nulo valor noticioso.

Outrossim, a promiscuidade entre o “quarto poder” e o poder político e poupado, a par de outros factores, tem, nas últimas décadas, feito recuar os níveis de crédito da opinião pública na informação social, a qual prefere tomar o seu shot noticioso dos meios sensacionalistas ou, pior, das redes sociais.

Não obstante o lúgubre diagnóstico, acredito que esta guerra e os tempos difíceis que ela inaugurou no velho continente estão a mostrar o quão importante o jornalismo e a informação social são para uma democracia informada e para sociedades livres, justas e iguais.

Diz-nos o Código Deontológico que «o jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade», destacando a sisifiana tarefa dos jornalistas em nos ajudarem a compreender o mundo em que vivemos.

É, pois, vendo o trabalho dos meus colegas na Ucrânia e a honra e zelo com que o fazem que hoje posso expressar com orgulho: eu também sou jornalista!

O responsável escreve segundo novo consonância ortográfico

Natividade: https://www.publico.pt/2022/07/16/opiniao/opiniao/jornalista-2013911