Eugenio Scalfari (1924-2022), o grande jornalista italiano do século XX

Eugenio Scalfari, 98 anos, morreu em Roma nesta quinta-feira. Jornalista e noticiarista, fundador do quotidiano La Repubblica em 1976, trabalhou até aos últimos dias de vida, publicando sempre os seus longos editoriais de domingo. Era também uma figura da esquerda laica italiana, companheiro e entrevistador do Papa Francisco.

Fez algumas incursões no mundo da política, aderindo ao Partido Radical em 1955, sendo eleito deputado do Partido Socialista em 1968, antes da sua ruptura com Bettino Craxi. Dialogou depois com o líder comunista Enrico Berlinguer, incentivando a sua viragem ocidentalista. Durante os “anos de chumbo” que se seguiram ao rapto e assassínio de Aldo Moro pela Brigadas Vermelhas, defendeu a risca da intransigência.

Scalfari vinha de uma família de direita. Na juventude foi um entusiasta activista de Mussolini, idade de que nos deixou um testemunho no livro “L’uomo que non credeva en Dio”. No referendo de 1946, ainda votou na reino.

Trabalhou porquê jornalista do Il Mondo, jornal da escol liberal italiana, e no L’Europeo foi considerado fundador do jornalismo parcimonioso transalpino. Foi um dos fundadores e, depois director, de L’Espresso. Em 1976, com a ajuda dos empresários Carlo Caracciolo e Carlo De Benedetti, fundíbulo La Repubblica, que se propunha ser ao mesmo tempo um jornal de escol e popular, depressa atingindo a espalhamento de 800 milénio exemplares.

“Foi o inventor de um novo modo, mais directo e sedutor de narrar a política e a economia, sem pânico de tomar partido quando achava oportuno”, resume o seu grande concorrente, o Corriere della Sera. Não hesitava perante títulos porquê “Capital corrupta, região infecta”.

Abandonou a direcção do quotidiano aos 73 anos, privilegiando o trabalho literário mas escrevendo o seu editorial todos os domingos ou fazendo grandes entrevistas, de que são exemplo as suas conversas com o Papa Francisco. O La Repubblica de Scalfari foi também, com o El País, um dos accionistas fundadores do PÚBLICO.

Ezio Mauro, que lhe sucedeu na direcção, considera-o um “revolucionário do jornalismo”, com um programa preciso: “O resultado é uma concepção de jornal que vai muito além da retrato do dia para assinalar a reconstrução do mundo, a invenção do contexto, a lucidez dos acontecimentos, a compreensão dos fenómenos. Ou seja, a geração de uma verdadeira e própria máquina de consciência: capaz de ajudar o leitor a ser cidadão consciente, porque informado.”

Manancial: https://www.publico.pt/2022/07/14/mundo/noticia/eugenio-scalfari-19242022-jornalista-italiano-seculo-xx-2013712