Ex-diretor do Museu da Presidência nega projecto para lucrar com presépios de Maria Estilha Silva – Portugal

O ex-diretor do Museu da Presidência Diogo Gaspar negou esta sexta-feira em tribunal ter elaborado um projecto com o arguido José Dias para obterem benefícios financeiros através de uma exposição dos presépios da antiga primeira-dama Maria Estilha Silva.

Na sessão no Tribunal Medial Criminal de Lisboa, o principal arguido do processo prestou declarações para explicar vários pontos da delação do Ministério Público (MP). Nas situações abordadas esteve um contrato entre uma empresa do também arguido José Dias – com quem Diogo Gaspar confirmou ter tido uma relação entre 2006 e 2012 – e a Instauração Mercedes Calles y Carlos Ballestero para uma exposição com os presépios em Cáceres (Espanha).

Questionado pelo presidente do coletivo de juízes, Luís Ribeiro, se havia gizado um projecto, uma vez que defendeu o MP, para obter benefícios económicos pessoais graças a obras que não lhe pertenciam, mas às quais podia ter aproximação enquanto diretor do Museu da Presidência, Diogo Gaspar foi taxativo: “Não, evidente que não”.

“Foi transmitido que queríamos ver o espaço e foi nesse contexto que nos deslocámos a Cáceres. Nessa reunião, Jesus Rodriguez [intermediário escolhido pela Fundação espanhola] estava presente e disse que não conseguia fazer leste trabalho e seria a sua parceira em Portugal a fazer essa intermediação entre a instalação e o Museu”, referiu o idoso responsável, identificando Ana Cristina Batista e Manuela Pais uma vez que parceiras em Portugal.

Diogo Gaspar contou que Ana Cristina Batista não tinha meio de faturar o serviço e portanto “pediu ao José Dias para confirmar o trabalho”, assegurando que ambas “já trabalhavam com a Traço a Traço [empresa de José Dias] em alguns projetos culturais”

O contrato assinado em 02 de novembro de 2011 estabeleceu o pagamento de 30 milénio euros à empresa do outro arguido. Confrontado com a imputação do MP de que teria feito crer à instalação espanhola que a empresa do seu portanto companheiro teria “a posse e a disponibilidade dos presépios de Maria Estilha Silva”, Diogo Gaspar vincou não estar ligado à conceção do contrato.

“Não sei, não passou por mim”, começou por proferir, continuando perante as constantes questões do juiz: “O que estou a declarar é que não conhecia os termos desse contrato. Só tive aproximação a leste contrato no contexto deste processo. Não tenho zero a ver com o contrato: nem com os termos, nem com os montantes”, explicou.

O ex-diretor do Museu adiantou que os presépios já estavam embalados e que o “transporte foi feito pela carrinha da Presidência, uma vez que em todas as exposições”. Porém, esclareceu que a empresa de José Dias teve custos neste projeto, nomeadamente ao nível da conceção e adaptação do espaço, a embalagem e o transporte do material expositivo, a produção do catálogo e a montagem do material de notícia, além das despesas de recursos humanos.

Paralelamente, Diogo Gaspar negou que, por via da sua função profissional, tivesse determinado a contratação das empresas de José Dias para serviços no Museu da Presidência.

“Não era eu que contratava ou promovia a contratação dos serviços de José Dias. Cada um dos serviços era independente na Presidência e eu não tinha a ver com os pedidos que esses serviços faziam. (…) Eu não determinava a outras direções da Presidência. Não promovi zero. O secretário-geral contratava quem entendia. Não alguma prestação de serviços de José Dias ao museu serviu para me beneficiar a mim pessoalmente”, afirmou.

Porém, ao ser questionado pelo presidente do coletivo de juízes sobre a alegada sugestão dos serviços das empresas de José Dias, o ex-diretor do Museu da Presidência enalteceu a qualidade dos serviços prestados: “Se alguma vez tive essa mediação, nunca foi para beneficiá-lo a ele financeiramente. Era para beneficiar o museu. Se alguma vez o indiquei era porque o trabalho dele era útil, necessário e muito feito”.

O julgamento do ex-diretor do Museu da Presidência — que ficou sabido uma vez que ‘Operação Cavaleiro’ – prossegue no dia 14 de fevereiro, a partir das 09:30, no Campus da Justiça.

O processo ‘Operação Cavaleiro’ conta com quatro arguidos — Diogo Gaspar, José Dias, Paulo Duarte e Vítor Santos -, que respondem por um totalidade de 42 crimes, entre os quais afronta de poder, participação económica em negócio, tráfico de influências, falsificação de documentos, peculato e branqueamento de capitais.

A investigação, que ficou a função do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, teve início em abril de 2015, na sequência de uma denúncia anónima. Em junho de 2016, a PJ efetuou buscas e apreendeu em mansão de Diogo Gaspar e de amigos alguns artefactos que pertenceriam ao Museu da Presidência, com o Tribunal de Instrução Criminal a resolver levar o caso a julgamento em 10 de julho de 2019.


Manancial: https://www.cmjornal.pt/portugal/pormenor/ex-diretor-do-museu-da-presidencia-nega-plano-para-lucrar-com-presepios-de-maria-cavaco-silva