Não faltam vozes para trovar oriente “país oceano”. O mar na música portuguesa

É o “mar salso”, “das trevas”, que some galés, que Rui Veloso cantou. É o mar do País oceano, de Anamar, em que “as ondas todas são gente”. É o mar das Visões-ficções medonhas de António Variações: “Já vejo o mar a crescer/Vaga gigante a varrer/Só vejo corpos a sobrenadar.”

Ele, o mar, está um pouco por todo o lado no pop-rock, em sentido lato, português. Está na procura de uma identidade lusa dos Heróis do Mar e dos Madredeus. Nas “tormentas” dos Sete mares da Sétima Legião. Na Baía de Cascais, n’ A moradia da praia e no navio que “ao passar” “fica o mar sempre igual” dos Delfins. Nos “magníficos dias atlânticos” dos Ban. Nos devaneios épicos, comuns no metal de todo o mundo, mas que neles surgem cheios de Portugal, dos Moonspell.

“Inspirados pela tradição portuguesa”, os Heróis do Mar, nascidos em 1981, encontraram no mar o “pavimento” da sua proeza”, diz o fundador Pedro Ayres Magalhães. Até portanto, o mar inspirava poucos artistas pop-rock, apesar de alguns episódios pontuais, porquê Poema (1969), da Filarmónica Fraude, disco de rock progressivo em torno dos Descobrimentos.

Na sua procura de uma portugalidade moderna, uma portugalidade pop, os Heróis do Mar tiveram a companhia da Sétima Legião, Anamar, Clube Naval e de outros projectos da editora Instalação Atlântica, que Ayres fundou em 1982 com Miguel Esteves Cardoso e outros crentes na pop portuguesa.

Os Heróis do Mar, “grupo de marinheiros” que trouxe para o pop-rock dos anos 1980 portugueses símbolos porquê a Cruz da Ordem de Cristo, não queriam fazer a divinização da poema marítima portuguesa, afirma Ayres Magalhães. Interessavam-se mais pelo que iria no espírito dos embarcadiços, pelo que “seriam os sentimentos” de quem partia para o mar. “Não é na certeza que se desenvolvem as pessoas. Queríamos trazer essa metáfora para a vida moderna”, conta.

Embarcadiço é o nome de uma música d’ Os Golpes, um dos projectos da Paixão Fúria, editora discográfica fundada em 2007 que tem nos Heróis do Mar uma referência (Paixão Fúria surge do nome da música dos Heróis Amantes furiosos). Os Golpes, já extintos, reinventaram, à luz do rock, Tenho barcos, tenho remos, cantiga popular imortalizada por José Afonso. “É uma inevitabilidade que o mar esteja presente. Sabor de pensar que estou de costas para a Europa e de frente para o Oceano Atlântico”, revela Manuel Fúria, que esteve nos Golpes e fundou a Paixão Fúria.

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Manuel Fúria
Paulo Pimenta

Mesmo quando olha para o interno, para a “terreno porquê o sítio de onde és”, Fúria fá-lo por “oposição ao mar”. “Há consciência da falta do mar”, sublinha. “[O mar] É tão grande que atinge uma dimensão quase místico. Toca nos teus nervos mais sensíveis. É uma coisa tão física que fala de coisas espirituais, porquê a perpetuidade. É perigoso, é repousado, é tudo ao mesmo tempo.”

O integral entre nós

Ana Maria Alfacinha de Brito Monteiro tem tanto mar dentro de si e da sua música que assumiu o nome Anamar – nos palcos, nos discos, mas também no resto da vida (há quem lhe chame Ana, há quem lhe chame Anamar).

O que surgiu porquê uma sugestão de um sueco com quem partilhou uma margem (“O teu nome é muito grande, vou-te invocar Anamar”), no término da juventude, tornou-se um segundo nome para a lisboeta. “Temos esta quesito incrível de o mar ser a nossa psique – em rigor, se calhar, é a nossa identidade”, defende.

Não se ficou pelo nome: canta o mar em diversos momentos da sua curso a solo, que começou nos anos 1980. No álbum de estúdio que lançou em 2013, Anamar, estão versões de Embarcação preto (popularizado por Amália, com letra de David Mourão-Ferreira) e Sete mares, da Sétima Legião.

Para Anamar, é inevitável falar de mar quando se pensa ou canta sobre Portugal. “Nós somos gigantes, mesmo em termos físicos. Se contarmos com a plataforma continental que entra pelo mar adentro, somos enormes. Mas, mais do que a dimensão da espaço geográfica, vivemos voltados para o mar. Adiante dele não tem mais zero que não o integral. Essa relação tão familiar com o integral faz secção de nós. Não sei quem nasceu primeiro, se foi o mar que nasceu em nós, se fomos nós que nascemos nele”, diz a cantora.

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Anamar
Miguel Madeira

Oriente mar português, “que liga às raízes e faz velejar para longe”, é, para Anamar, mais do que referência simbólica. Fala dele com conhecimento de justificação: é patrão da costa (pode velejar até 25 milhas da costa). “Sei o repto que é estar no mar. É entregarmo-nos a um meio que não dominamos, que tem as suas regras, os seus princípios, que podemos estudar mas que têm uma margem de imprevisibilidade razoável”, nota.

É Anamar que canta “O meu país é o mar” em País oceano, com letra de Tiago Torres da Silva. “O mar pode ser o lugar de todas as quimeras, mas também pode ser o lugar de onde nunca partimos. Essa letra termina assim: ‘O navio que anda aos ésses/sem nunca trespassar do cais’”, aponta o letrista. “É um bocadinho o que andamos a fazer – o mundo em universal.” A crise presente é também “consequência disso”: metaforicamente, ir para o mar “seria ver o horizonte porquê um repto e não porquê um travanca”.

O mar está presente em várias letras escritas por Tiago Torres da Silva. “Vivo em Lisboa. Tenho uma relação muito possante [com o oceano]. O mar é a metáfora maior do paixão que existe no mundo: gostamos de estar perto, gostamos de entrar, mas não lhe perdemos o temor.”

As letras de Tiago com mar dentro “nascem um bocadinho de uma tradição poética que há em Portugal na qual o mar foi sempre importante”. “Desde o Camões que o mar é um dos protagonistas da trova portuguesa e isso foi trazido para a música popular com muita força. Havia esse imaginário poético em que o mar é uma metáfora da saudade, da intervalo, da relação ao incógnito, da separação dos amores, do revinda dos amores. Isso é uma coisa que é tão antiga quanto a trova portuguesa. Quando os poetas começaram a ortografar para a música, levaram o mar. Tenho muito mar no que escrevo. O mar é ele próprio uma música: tem uma compasso, a ondulação.”

Touradas com tubarões

A tradição poética existia, os Heróis do Mar já tinham começado a revisitar o pretérito marítimo para marcar um lugar numa cena pop que desconfiava dos símbolos dos Descobrimentos (uma suspeição que se devia à apropriação ideológica que deles tinha sido feita no Estado Novo), mas é em 1982 que a temática é vertida na sua plenitude para canções.

É nesse ano que Fausto Bordalo Dias, que nasceu em 1948 no Atlântico (a bordo do navio Pátria, que viajava de Portugal para Angola), inaugura a trilogia Lusitana Diáspora, com Por Oriente Rio Supra. Frequentemente posto nas listas de melhores discos portugueses, o álbum, um colosso da música popular portuguesa, secção de Romaria (1614), relato de Fernão Mendes Pinto das expedições dos descobridores e conquistadores portugueses.

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Fausto
Adelaide Carneiro

“Fausto assumiu esse tema porquê fulcral”, confirma Pedro Félix, que colaborou na produção da Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, com direcção de Salwa Fortaleza-Branco.

Para o investigador do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Novidade de Lisboa, Fausto é o “tradutor que está mais ligado a esse imaginário”, mas o mar está em muitos outros músicos mais ligados ao pop-rock – dos Xutos & Pontapés (“As ondas que te empurram/As vagas que te esmagam”, canta Tim em Vogar, vogar, single de 1984 da Instalação Atlântica) aos Sitiados (na festiva Vida de navegador, 1992).

O impacto de Por Oriente Rio Supra foi tal que levou Carlos Tê a procrastinar a concretização de uma “teoria muito antiga”: ortografar canções sobre os Descobrimentos e o Poderio Português. A oportunidade perfeita surgiria uns oito anos depois, com uma encomenda da Percentagem Pátrio para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. O Banco de Portugal patrocinou a empreitada dispensando o empregado Carlos Monteiro, isto é, Carlos Tê.

Durante um ano, o letrista inseparável de Rui Veloso mergulhou mais fundo na história portuguesa e das histórias que recolheu, em livros e na revista Oceanos, editada pela Percentagem Pátrio para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Resultado: Auto da Pimenta, álbum de Rui Veloso de 1991. “O foco era sempre a perspectiva do navegador generalidade, o cabo raso. Era essa a perspectiva, que nunca está nos livros de História, a perspectiva do sobrevivente, do [Fernão] Veloso d’Os Lusíadas, daquele gajo que tenta desenrascar-se porquê pode”, explica Carlos Tê.

Das histórias que leu, Tê lembra-se de uma em pessoal. As calmarias – períodos, por vezes longos, em que a falta de vento impedia os barcos de prosseguirem viagem – faziam despertar a imaginação dos marinheiros: porquê passar o tempo no alto-mar? “Chegavam a fazer touradas com tubarões. É cinema puro, não se pode pôr numa música, só com imagens.”

Ainda assim, a imagem foi parar a uma música de Auto da Pimenta, Calmaria: “A mando do capitão fizemos procissão/Missa e novena cantada pescamos um tubarão/e depois de o cegar no convés com ele fizemos tourada/mas do vento de maneira é que ninguém sabia de zero.”

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Rui Veloso
Paulo Pimenta

Mar, saudade, paixão

O alto-mar pode ser o lugar de uma “tempestade de vingança”, se o mar for uma metáfora para o paixão – ou para a falta dele. Foi o que fizeram os Heróis do Mar em 1981, com a música Mar cocuruto, “metáfora de um desamor”, diz Pedro Ayres Magalhães. Cinco anos depois, no álbum Macau, Só no mar é já dona “de uma dimensão mística” (“Flutuar, flutuar no ar/A nadar, a nadar, a nadar no mar/Eu só quero subir, é subir/e subir e subir/Eu só quero é sentir, e sentir, e sentir/O Senhor”).

Noutro projecto, Pedro Ayres Magalhães levaria mais fundo a valia simbólica do oceano. O mar faz secção do triângulo que define os Madredeus, fundados no meio dos anos 1980 (tornar-se-iam uma das mais internacionais forças culturais portuguesas): “Em todas as canções existem o mar, a saudade e o paixão.” Mar e saudade confundem-se: “O mar aparece porquê a intervalo a transcorrer entre duas pessoas que se estimam.”

Eis o mar na voz de Teresa Salgueiro (O mar, 1994): “Não é nenhum poema/o que vos vou expor/Nem sei se vale a pena/tentar-vos descrever/o mar”. Mais avante: “E fui envelhecendo/sem nunca o perceber”. Ei-lo, de novo, em A profecia atlântica (2008), já enquanto Madredeus & A Orquestra Cósmica (“Vivemos o porvir no presente/e navegamos nuns barcos de luz/Cruzamos os três continentes/azuis”), visão do Quinto Poderio na qual o mar é, diz Magalhães, “território de paixão”.

Para Carlos Tê, “o mar, nos séculos XV e XVI, é o espaço sideral”, é o incógnito, o que faz da expansão marítima portuguesa um pouco comparável à corrida espacial da segunda metade do século XX.

“É um bocadinho o nosso Evereste”, compara, por seu lado, Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell. Na discografia do grupo, o mar surge, por exemplo, nos temas Espírito mater (“Breaking waves announce my bride/It is the only way the sea could sing/legends of lusitanian pride/He sings the words I cannot spring”), hino do metal pátrio, Atlantic, Finisterra e no instrumental Mare Nostrum.

Durante muito tempo da história portuguesa, o mar era “trevas”, diz Ribeiro. “Sabíamos que havia terreno a oriente, mas ninguém sabia o que o mar encerrava. Esse sentimento de isolamento, de solidão, esse finis terrae influencia muito os Moonspell. É uma presença quase inevitável”, elabora. Habituados a percorrer o mundo para mostrar a sua música, sabem o que é viver sem mar. “Regressamos sempre a moradia para ver a moradia, também para ver o mar. Andamos por países que não têm essa bênção.”

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Fernando Ribeiro dos Moonspell
Miguel Manso

Tiago Torres da Silva vê no mar um “óptimo amplificador das almas dos povos e a música é seguramente o lugar onde ele mais consegue ser amplificador porque ele próprio carrega uma música. É preciso ouvi-lo.”

“[O mar] Faz secção de nós, é a nossa imensidão e o nosso horizonte”, defende Anamar. “Às vezes, olho para oriente país e para o povo que somos e não me admira existirem tantas formas de estar e de ser-se português. É fácil quando estamos abraçados a um sonho perdermo-nos nas idiossincrasias das águas.”

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Nascente: https://www.publico.pt/2022/06/23/azul/noticia/nao-faltam-vozes-cantar-pais-oceano-mar-musica-portuguesa-2011093