Parede de tijolo

Há uns dias tive um encontro estranho e poderoso que não me sai da cabeça desde portanto. Uma dessas situações que, caso não tivesse sido real, poderia ser resultado de um sonho, de uma fantasia, ou de uma ficção, dada a sua inverosimilhança.

O meu namorado organizou um jantar e uma prova de vinhos em nossa vivenda para alguns convidados. Quando cheguei, já lá estava um par. Não conhecia a rapariga. Conversámos antes de chegarem as restantes pessoas. Os nossos filhos brincaram e comeram a sopa juntos. Falámos de sonhos, da vida no campo, do Tinder, de signos, de maternidade. Ela chama-se Madalena, porquê eu, tem mais ou menos a minha idade, e um fruto da idade de uma das minhas filhas. Mas estávamos longe de saber que nos unia um gavinha muito mais profundo. É que nós não partilhamos unicamente o nome e o palato pouco treinado para a enologia e para a realce de sabores vinícolas. Descobrimos, com grande comoção, que tínhamos partilhado o mesmo padrasto. Tratando-se de uma coincidência curiosa em qualquer situação, sendo o padrasto que foi, transformou-se num momento de íntima relação. Demos um amplexo. “Ele também estragou a tua puerícia?” e rimos. Antes de mim, ela. Antes da minha mãe, a dela. Ele chegou à sua vida quando ela tinha seis anos. Chegou à minha quando eu tinha seis anos. Esteve uns anos com a mãe dela e depois começou a namorar com a minha.

Foi porquê o encontro de dois porquinhos depois o lobo mau ter destruído as suas casas, cuja estrutura emocional tinha a fragilidade de paredes de palha.

Nos momentos difíceis, eu lembro-me de pensar, porquê é generalidade, que nunca ninguém me poderia compreender. Não me ocorria que outros campos já tinham sido dizimados por aquela tempestade. Não sabia que já tinha havido outras mulheres a tolerar porquê a minha mãe, e ainda menos outras crianças a tolerar porquê eu. Tinha noção de que havia gritos noutros corredores, violência e abusos noutros lares. Mas os berros naquele timbre, a agressividade naquele compasso, a perversidade naqueles gestos, eu achava que era bagagem minha. Um filme exibido só para mim. O meu pretérito, único e indivisível, a minha história, que me caberia a mim embatucar.

Uma vez que poderia presumir que existira outra rapariga, outra enteada, outra Madalena, a chorar pela sua mãe por pretexto daquele varão? Ainda agora me parece estrambólico pensá-lo. Lembra-me os universos paralelos, as realidades multidimensionais, os metaversos, qualquer coisa desse contexto. Vi um revérbero num lago, onde apesar de a chuva ondula não deixa de poder ser reconhecida.

Sem menosprezar as nuances que tornam única cada história, o que é verdade até para aqueles que dividem um mesmo telhado, acho que a violência se assemelha muito num ponto: na forma porquê faz sentir quem a vivencia, daí ter tanta empatia entre pessoas que passaram por situações assim. Tratando-se do mesmo varão, a afinidade que nos ligou, às duas, dispensa qualquer elaboração. Pelo menos era isso que dizia o nosso olhar, repleto da mais intensa compreensão. “Chamava-lhe o cagalhão”, confessou-me. Eu sorri, mas tive vontade de chorar. Porque poderia ter sido eu a chamá-lo assim. Fui eu, à minha maneira. Sem esse vocábulo, mas com sinónimos adjectivais.

Desde nascente encontro que tenho pensado nas pessoas e no seu silêncio. Compreendo tão muito o silêncio. Sempre o cultivei, nesta material. O silêncio ainda parece, para tantas mulheres, a salvação. O silêncio usa-se porque se confunde a fala com a fraqueza, a partilha com a exposição, e a exposição com a vergonha. Acusar a violência é assumir que a permitimos, e isso, por vezes, parece mais doloroso do que qualquer agressão. O silêncio não é unicamente interiorizado, é, muitas vezes, incentivado.

A minha mãe não se silenciou, e pelo que entendi, a da Madalena também não. Mas foram, de várias formas, silenciadas. Na estação, as denúncias feitas à polícia resultaram num silêncio inexplicável por segmento das autoridades. Sinto que se avançou desde portanto nesta pressão para que se cale. Não sei se quem cala consente, mas sei que quem cala também sente. E, se sempre achei que o silêncio era fórmula de sobrevivência, entendo agora que possa ser rigorosamente o oposto. E que é urgente falar. Porque, mesmo nos casos em que tudo parece completar, pode estar a completar unicamente para nós. O nosso termo pode sofrear outro início. E a nossa vocábulo pode evitar o sofrimento seguinte. Ele foi expulso de vivenda dela, e entrou na minha, pronto para debutar do zero, numa aura de impunidade. E quando foi expulso da minha, partiu para a seguinte, do mesmo modo. As nossas histórias estão interligadas. A minha, a dela, e a de outras mulheres. Entendo agora que uma denúncia e uma partilha podem ser a parede de tijolo do porquinho seguinte. E não só do próximo. Falar revela-se, por fim de contas, um acto de força inesperada.

Volto ao amplexo que demos. O amplexo de dois silêncios quebrados. E penso no poder que há neste amplexo de duas pessoas com a mesma cicatriz, que parece ténue e adormecida, mas que, na luz certa, volta a sobressair. Foi um momento de união. Uma união que desejaríamos não ter mas que, existindo, carrega uma formosura que seria impossível não detectar. A formosura de flor em terreno devastado. E penso que esta partilha e nascente amplexo conteve horizonte, ternura e esperança. E que foi, em si, parede de tijolo erguida.

Manadeira: https://www.publico.pt/2022/04/06/impar/cronica/parede-tijolo-2001434