Uma questão de liberdade ou porque é que esta guerra é mesmo dissemelhante

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Quando eclodiu a guerra na Ucrânia, fiquei com a teoria de que todos perceberiam a relevância do momento que vivíamos, uma viragem para uma novidade era. Mas, em seguida um mês de guerra, depois de ler muito do que se tem escrito na notícia social, fico com dúvidas. Não me refiro à reação de segmento da esquerda pátrio que anda tanto em contramão com o mundo atual que parece encontrar que Putin, o rei dos oligarcas, é um digno representante dos valores comunistas da ex-URSS. Isto nem vale a pena comentar! Mas outros pensadores que aprendi a respeitar têm também relativizado a valia desta guerra em relação a outros conflitos recentes.

Parece-me que temos um dilema entre valores e uma perceção daquilo que pode ser o protótipo de uma ordem internacional mais justa. Comecemos por esta última segmento. Muitos têm referido que zero distingue esta guerra de muitas outras no recta e na ordem internacionais. Simples que há razões para esta opinião e não as nego. É verdade que tivemos dezenas de guerras nas últimas décadas, muitas ainda a transcursão e muitas condenáveis do ponto de vista do enquadramento internacional. Tivemos guerras que mataram muitos inocentes, incluindo crianças, cidades bombardeadas e até cidades completamente removidas do planta (muito, cá a Rússia tem sem incerteza o papel mais relevante, com os exemplos de Alepo ou Grozny), tivemos crimes de guerra e até Estados a invadir outros Estados independentes com razões puramente inventadas pelos invasores (sim, e o Iraque é um dos exemplos)! Tudo isto é obviamente condenável e não é cá que esta guerra se distingue!

Mas, permitam-me expressar, esta guerra é mesmo dissemelhante de todas as outras que temos tido nas últimas décadas.

Em relação à empatia da opinião pública, diz-se que estamos a endeusar os ucranianos e o seu presidente de forma um tanto irracional. Simples que, quando se fala de opinião pública, há sempre alguma irracionalidade… Na vida tudo é relativo: a morte de um ente querido nunca será semelhante à morte de um ignoto, tal uma vez que a guerra contra um povo de que estamos próximos (a Ucrânia era já uma das principais comunidades de imigrantes em Portugal e é um país europeu) nunca será igual à guerra contra um povo mais distante. Basta vermos a mobilização pátrio na questão de Timor Leste… e a quase indiferença de muitos dos nossos vizinhos na UE. Seria irrealista pedir que a opinião pública e a notícia social conseguissem ser completamente indiferentes a isto e 100% neutrais ou isentas, ainda por cima com toda a indiferença pela morte de civis que tem sido demonstrada neste conflito e a cobertura globalizada em todos os meios de notícia e redes sociais.

Mas há outras razões mais relevantes para que esta guerra seja única e tenha desde o primeiro dia merecido a empatia de muitos nos países ocidentais com democracias liberais.

Desde a Segunda Guerra Mundial que não tinha havido uma guerra contra um Estado independente e democrático, por segmento de outro Estado (neste caso um estado não democrático), e com o objetivo evidente de limitar a sua liberdade. Se olharmos para a história, isto muito raramente aconteceu… E o último exemplo, o mais paradigmático, serão as invasões de Hitler na II Guerra Mundial sobre estados democráticos europeus. Assim, não admira que muitos vejam na Guerra da Ucrânia muitas semelhanças com esta guerra, pois foi o último exemplo de um ataque militar direto à liberdade de um povo. Não é surpreendente que muitos sintam que os ucranianos estão a travar a luta de todos nós pela liberdade, até porque há razões fundamentadas para encontrar que Putin não quererá permanecer por cá.

Tudo isto não implica, ao contrário do que muitos apregoam, que a democracia ucraniana fosse perfeita ou que Zelenskii seja o varão ou o político perfeito, mas unicamente que eles estão a lutar por valores que a maioria dos ocidentais partilham e que todos sentimos que estão em transe e precisam ser defendidos. Churchill ou Luther-King não foram homens perfeitos, mas todos sabemos a aura que adquiriram, exatamente pelo papel e pela coragem que tiveram na resguardo daquilo que muitos achavam que eram valores inegociáveis.

Em muito do que se lê sobre esta guerra, parece sobressair um debate dos mais antigos na nossa história, entre dois valores dos que todos mais prezamos: a sossego e a liberdade. Muitos parecem proteger que talvez possamos negar em alguns casos do segundo (evidente que não cá no seu quintal, mas no quintal dos outros) para ter o primeiro. E que o melhor era a Ucrânia ceder e negociar com Putin a sua psique, o seu território, a sua liberdade de escolha, em troca da sossego. Até porque do outro lado está alguém que pode carregar no botão…

Eu e muitos outros, com toda a certeza, continuamos a proteger que teremos sempre que lutar pela liberdade, o princípio número 1, sem cedências, mesmo que em algumas circunstâncias se possa ter que perder a sossego por qualquer tempo. Chamem-me ingénuo, aceito. Mas só assim foi verosímil derrotar Hitler! E estando perto da profundidade do ano em que comemoramos o 25 de abril, ainda muito que há 48 anos tivemos militares que não tiveram pânico de aventurar e lutaram pela liberdade em que acreditavam uma vez que seu primeiro princípio!

O responsável escreve segundo o novo pacto ortográfico

Natividade: https://www.publico.pt/2022/03/30/opiniao/opiniao/questao-liberdade-guerra-diferente-2000674